Ricardo Laf

Memórias autorais

Memórias autorais

Em um espaço da manhã da cidade, é verdade, a cor trepa com a luz e elas ficam fornicando até o sol a pino declarar que agora é diferente, que podem parar com aquilo.

Deixou a marca do pisante compondo as formas geométricas arquitetônicas da cidade.

Imersão nas energias luminosas

Retrato reflexivo

Photopainting

Do recinto brotavam as conspirações amareladas que ignoravam iluminadas a escuridão das ruas, o asfalto sujo que os limpos precisavam pisar para expressar a aparência brilhosa de uma cândida limpeza, as cenas distantes do teatro musicado pela sonoridade dos drinks, tudo o que de fato pertencia ao mundo e seria objeto daquelas considerações elevadas que realçavam uma orgulhosa alienação embriagada. 

Capoeira: roda sagrada e de tradição

Arquétipo

Adereço urbano

Flâneur

Andou entre as águas como um alvo dos pingos daquele mundo revolto e tomou para si a consciência quase mística de não saber para onde ir antes de evaporar.

Ensaio em movimento

Saída para um mundo colorido

Sinais indisfarçáveis das vocações humanas

Contatos

Numa tarde de inverno, com a luz de céu azul que deixa sua qualidade nas coisas, o melhor era brincar de correr entre as antenas que fazem os vivos se comunicarem com os seres terrenos e com o além mundo.

Fotografia abstrata de Ricardo Laf mostrando pontos de luz circulares e alaranjados (bokeh) através de uma janela com gotas, criando um efeito de luz incandescente e fragmentada.

Luminosidades: entre a mudez e o ruído 

Via pela janela incandescente o fragmento de um mundo nas gotas de luz, pedacinhos de histórias destroçadas, palavras assépticas de consolo, o claro silencioso que por um instante faz significar o lugar barulhento de todos os ditos.

Foto pintura:
o dizer imaginário

Uma fotografia não carrega o ônus da palavra que é ser verbalizada. É uma imagem, uma sensação visível. Alguém dirá por ela o que sua propriedade visual não diz, não pode e nem deve dizer. A pintura digital sobre uma foto digital parece criar a condição de uma imagem que diz. Ela conversa com ela mesma, se acomoda no território da autorreferência.

BH, Pampulha

Travessia solitária

À noite, emoldurado por uma escala de cinza granulada, observava serenamente como as coisas tinham desandado enquanto seres lá de fora, festivos, celebravam o que pareciam eternas alegrias. Veio um temporal e dispersou para sempre aquele para sempre.

Festival de cores sonoras

Digitais

As coisas são as pessoas e toda pessoa carrega uma coisa com a marca daquela coisa que se é.

BH, Praça da Estação

BH, Pampulha | Monumento à Iemanjá

Vespertino

A tarde de luz queima o senso, faz brilhar prantos silenciosos, delírios miúdos, tudo por quase nada.

Dança sob paletas de tintas digitais

A realidade certeira foi-se embora com as nuvens rumo aos territórios onde tudo é provisório, relativo e a farsa do viver encontra sua coerência na propriedade inútil do dizer.

Parece haver uma magia antes da música ocupar seu espectro, quando a sonoridade na condição de vir a ser estabelece a tensão entre o que ainda não existe e o que virá na qualidade de som, essa propriedade que faz da palavra inútil ao pretender desesperadamente descrever o que não dá conta.

BH, centro | Longa exposição

Os borrões espalhavam na paisagem os significados pelo infinito. Não eram isso ou aquilo, nem antes, durante e depois.

 

A noite embalou reluzente as criaturas, embaçou a razão, sepultou as verdades. Todos sobreviveram.

Andou devagarinho pelo amor florescido no jardim, respirou os detalhes vibrantes de suas formas e continuou a caminhada em direção ao horizonte, à aridez sem fim da realidade.

Conheceram-se no movimento de um barco enquanto trocavam as histórias onduladas refletidas que se desfaziam a cada remada.

Soprou a poesia grave do trombone, marcou o tempo com as pinceladas dos outros metais e ainda se manteve de pé estremecido pela percussão. Naquele espaço o lugar mais próximo era a música.

BH, centro | Praça da Estação – cobertura do Arraial de Belô

BH, centro | Praça da Estação – Arraial de Belô

Desatinar

A chuva de luz cadente molhava cada passo relutante que seguia pelo asfalto movediço, fazia o corpo se encharcar com a confusão da mente e os amores cegarem de tanto brilho.

Fotografia de Ricardo Laf capturando a descida de uma rua arborizada na Região Leste de BH, com luzes e sombras projetadas que criam uma atmosfera introspectiva e urbana.

Era só descer a rua. A cidade estava lá adiante, convulsiva, neurótica, repleta de atrativos, prazeres para se consumir, com seus ébrios errantes, o frenesi das luzes espalhadas pelas andanças, penumbras que encobrem os delírios, sinais de humanidade, rastros que anônimos deixaram para trás com suas sombras.

Fotografia com foco suave em vegetação tropical no Museu Inhotim, destacando tons de verde vibrante, texturas de folhas e o reflexo suave da luz solar entre as plantas.

Natureza refletiva no vidro

Fotografia noturna de Ricardo Laf com técnica de longa exposição, mostrando rastros de luz dourada em movimento contra um céu azul profundo no Circuito Pampulha.

Passava pelo baile da noite e não despregava os olhos das faíscas da dança, do movimento do sopro de um instante que a terra há de comer.

Fotografia urbana com efeito de longa exposição ou desfoque de movimento, mostrando o tráfego e luzes coloridas do centro de Belo Horizonte sob chuva, com tons vibrantes de laranja, vermelho e azul.

Deslocar

Na cidade navegável, de luminâncias faceiras, de todos os sonhos ditos possíveis dilacerados, guardava em segredo uma esperança desconfiada enquanto fingia acreditar na motivação consciente de cada passo rumo a um lugar em que não haveria como saber onde é quando estivesse lá.

Foto granulada em preto e branco de Ricardo Laf de um estojo de baixo.

Impregnadas de som, pela atmosfera que os meios técnicos dão a perceber, a forma e a luz eram o rastro da arte de quem faz música soar como música.

Foto pintura autoral de Ricardo Laf de um adereço circular e colorido

Foto pintura: simulação

“Ao contemplar uma pintura, há um momento em que perdemos a consciência do fato de que ela não é a coisa. A distinção do real e da cópia desaparece e por alguns momentos é puro sonho; não é qualquer existência particular e ainda não é existência geral”. C.S.Peirce.

Da realidade das formas e das cores que se imbricam

Ouço aqui e não é como era dali

Cultura popular e tradicional em exercício

BH, centro | Passarela sob leve chuva

Abriu a janela sem dizer, só para ver. Abandonou a palavra gasta que destroça a garganta antes de ser dita e deixou a luz quieta iluminar o silêncio.

Fogaréu

Via o mundo como uma brisa verde emoldurada.
Por viver, sem ter que saber.

Vibrâncias

O bolor da tarde dourava as alucinações das vidas caprichosas. Era o prelúdio das lendas noturnas.

O silêncio é a lembrança das palavras desfeitas, o vivido barulhento tornado mudo.

Fotografia autoral de Ricardo Laf mostrando uma composição de dupla exposição voltada para o sol. A imagem apresenta círculos de luz coloridos (bokeh) em tons de amarelo, azul e laranja, criando uma atmosfera onírica e abstrata.

Folhas despencando sobre bokeh

Foto colorida de Ricardo Laf mostrando o movimento de pedestres e o comércio de rua no centro de Belo Horizonte.

Barganhar

A rua estava em promoção, os corpos transpiravam afoitos o desencanto aos 34 ºC, passavam pelas vitrines que simulavam a neve do norte e apertavam o passo para vender a alma e poder comprar o Natal.

Fotografia em close do braço esquerdo de Ricardo Laf, exibindo uma tatuagem colorida inspirada na arte da capa do álbum Yellow Submarine, dos Beatles. A tatuagem mostra o submarino amarelo com detalhes vibrantes sobre a pele.

O sonho não acabou

Fotografia de Ricardo Laf mostrando um grande edifício de tijolos e concreto em Belo Horizonte, com árvores em primeiro plano e um céu azul límpido sob luz solar forte.

Na trama que se desdobra sob a secura de cegar do sol, levava furtivamente o pretexto que faz parecer legítima a intenção de continuar, de seguir representando o que imagina saber, mesmo sem ver, o que essa ilusão não permite ter.

Mosaico digital de Ricardo Laf intitulado "Cyberinsônia", com ícones, logos e elementos gráficos saturados da estética Web 2.0, representando a sobrecarga visual digital.

Cyberinsônia

Diante da tela luminosa, desse emaranhado de pixels que insistem em dar formas ao visível e visibilidade ao legível, dessa profusão de sinais e estímulos que se projetam implacavelmente sobre as desgraçadas criaturas que se prostram com seu piscar imperceptível…

Fotografia em preto e branco de Ricardo Laf mostrando um céu densamente nublado com nuvens de tempestade que parecem se fundir com a linha do horizonte.

Contemplou a realidade de cima e esperou a tempestade tomar conta de tudo, até as palavras se afogarem e os amores escorrerem mofados pelas frestas. Esperou até o céu se fundir com a terra.

Fotografia de Ricardo Laf para a série Memórias Autorais: cena documental sob viaduto com fanzines e público jovem, unindo imagem e literatura.

BH, centro

Anarchy in Province

Havia uma breve lembrança de atmosfera anárquica debaixo daquele viaduto colorido por escritos, rabiscos rupestres e com um odor corrosivo de urina. A cena se desdobrava com a anuência da lei, da permissão de se defender publicamente o sumiço do Estado. Era tudo bastante ordeiro.