Ricardo Laf

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Tomar uma fotografia digital como uma imagem digital altera, corrompe e perverte todos os estatutos que se amparam na pureza conceitual e canônica daquele fragmento imutável e sagrado de espaço e de tempo que nomearam fotograma.

Quando fotografei pela primeira vez em formato digital, naquele tempo bem diferente de hoje, o fotograma binário parecia um registro de brinquedo. Passei a considerar aquele resultado visual como uma imagem, não exatamente uma fotografia, embora o procedimento operacional para obter, capturar a imagem fosse o mesmo da fotografia. Diante dessa condição brincante do visual, seu estatuto estético de ser uma imagem, pós-fotografica – considerei, com o passar dos anos, que isso criava um precedente liberto de certos purismos, permitia uma intervenção sem remorsos naquilo que foi gerado pela câmera. Foi então que essa circunstância, alguns anos depois, me faria sentir autorizado a adulterar aquela visualidade de gênese digital provocada por um clique da câmera. Vieram experimentos de toda sorte, feios, bizarros, bonitos ou apenas e simplesmente ações experimentais que buscavam avaliar as possibilidades instrumentais daquelas ferramentas de propósitos estéticos.

Tomar uma fotografia digital como uma imagem digital altera, corrompe e perverte todos os estatutos que se amparam na pureza conceitual e canônica daquele fragmento imutável e sagrado de espaço e de tempo que nomearam fotograma. A técnica tornou possível esculhambar tudo isso, adulterar, definitivamente, a aura sagrada do que um dia foi uma fotografia.