Ricardo Laf

post-header
Fotografia

Tripla Exposição: três mundos, três cliques e uma única imagem

A múltipla exposição é um recurso técnico com o potencial de criar novas realidades a partir da própria realidade. No universo digital, essa técnica substituiu as ações mecânicas por comandos que respondem numericamente à criação. É possível transitar pela suavidade poética de uma cena ou, em até 10 ou 15 disparos sobrepostos, alcançar um cenário caótico, distópico — o primor do nonsense. Às vezes, o resultado pode ser profundamente interessante.

É um experimento, o registro de um mesmo objeto por três fotos que se sobrepõem em uma única foto: um baixo elétrico. Utilizando uma lente 24-70mm, realizei o primeiro disparo em 24mm; o segundo, entre 40 e 50mm; e o terceiro, em 70mm. Foram três cliques em direção ao mesmo alvo, mas com distâncias focais diferentes. Uma opção moderada, temerosa e pouco ousada. Foi apenas um teste da potencialidade de uma técnica para a prática e a expressão da fotografia, ver como poderiam figurar três perspectivas coexistindo em um único plano.

A imagem provoca estranhamento. O olhar sente-se enganado pelo que vê. A imagem está lá, incontestável em sua existência, sem a obrigação de registrar a “realidade pura”. Trata-se de uma intervenção deliberada que intenciona a multiplicidade.

Na realidade técnica da tela de luz, amplia-se sem limite mensurável a condição provisória da imagem, as possibilidades de intervenção em sua breve estabilidade. Certa vez, Pierre Lévy, talvez para lembrar que não há como fazer um julgamento moral, cunhou um poderoso aforismo: “A técnica não é boa, não é má, nem neutra”. Ela é uma condição de feitura.