
Era o final de 2002. Naquela época ainda fotografava com bastante parcimônia — dado o custo de uma revelação — com uma câmera Pentax MZ-50, um dispositivo analógico simples, modesto, do tipo reflex, corpo de plástico, mas que produzia fotos de qualidade bastante decente. Vivíamos a transição rumo à atual era de predominância digital.
Adquiri, então, uma singela *PowerShot A100 da Canon (esta da foto). Ela tinha 1.2 megapixels, LCD de 1,5 polegadas e suportava um cartão de memória CompactFlash que comportava, no máximo, 16 fotos. Uma graça de maquininha. Bastante limitada, mas uma ferramenta de pura magia. Poxa, você clicava e a foto aparecia quase instantaneamente em uma telinha? Parecia algo mágico, ainda que, quando impressa, a fotografia fosse como um rascunho.
Contudo, seria preciso considerar aquilo apenas como uma fase inicial de um processo que se desdobra até hoje.
Havia uma nova circunstância fascinante: ora, não se precisava mais de um laboratório escuro com todas aquelas químicas, pias, aparatos e ampliadores para revelar uma foto? Que incrível baixar a foto para o computador, tratar e “revelá-la” no Image Editor do Windows 98!
De fato, aos poucos se estabelecia um antes e um depois, algo pomposamente dito paradigma.
Certa vez, um reputado fotógrafo da velha guarda me viu com ela, veio até mim e, surpreso, indagou como aquilo funcionava. Ele admitiu seu espanto, reconheceu que o mecanismo de “roubar” imagens da realidade era diferente, mas sentenciou o que jamais esqueci: “Que incrível! Parece um brinquedo. Mas isso não vai pegar, não vai vingar. É só uma onda, uma modinha”.
Nunca mais o vi. Foi como se tivesse acontecido com ele o que ele profetizou para o brinquedo.
O que veio dessa onda todos sabemos, pois ainda estamos surfando nela. Os brinquedos se disseminaram e, de certa forma, fizeram de todos nós seus reféns.
*Foto de Canon Camera Museum