
Quando fotografei pela primeira vez em formato digital, naquele tempo bem diferente de hoje, o fotograma binário parecia um registro de brinquedo. Passei a considerar aquele resultado visual como uma imagem, não exatamente uma fotografia, embora o procedimento operacional para obter aquele resultado fosse o mesmo. Diante dessa condição brincante do visual, seu estatuto estético de ser uma imagem – conceito mais genérico do que uma fotografia – considerei, com o passar dos anos, que isso criava um precedente liberto de certos purismos que permitia uma intervenção sem remorsos naquilo que foi gerado pela câmera. Foi então que essa circunstância, alguns anos depois, me faria sentir autorizado a adulterar aquela visualidade de gênese digital do modo como desejasse, sem qualquer culpa ou purismo, ainda mais se tivesse sido provocada por um clique de minha autoria. Eis que vieram experimentos de toda sorte, feios, bizarros, bonitos ou apenas e simplesmente ações puramente experimentais que buscavam avaliar as possibilidades instrumentais daquelas ferramentas para atenderem a propósitos estéticos.
Em síntese: tomar uma fotografia digital como uma imagem digital altera, corrompe e perverte todos os estatutos que se amparam na pureza conceitual e canônica daquele fragmento imutável e sagrado de espaço e de tempo que nomearam fotograma. Desde então se tornou possível esculhambar tudo isso, adulterar, definitivamente, a aura sagrada do que um dia foi uma fotografia ou que em termos mais rigorosos nunca tenha sido uma fotografia.