Ricardo Laf

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Até meados de 2020, do interior de uma prótese motora, havia a intenção de registrar o que se passava fora dela, a paisagem urbana emoldurada por sua janela. A reunião desses cliques redundou em uma série fotográfica chamada “Do Ônibus”.

Desde então, no trânsito, o olhar e a janela se mudaram de lugar e a série se fez “Do Carro”. É diferente. O ônibus está a uns 2 metros do nível da pista; o carro, para o olhar fotográfico, está quase no mesmo nível — pois, para estar de fato no mesmo nível, seria preciso se deitar na rua. O carro é mais ágil do que o ônibus, perde-se muitas cenas, embora o espetáculo continue a ser encenado. Nos olhares de dentro de um carro e de dentro de um ônibus, mediados pelo olho da câmera, o lugar para se ver é outro.

Existe, contudo, uma circunstância idêntica nesses lugares de ver: vai se passando por cenas e histórias, elas se vão, ficam cutucando a memória.