Descrição
Lagoa Santa é um município brasileiro do estado de Minas Gerais, localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Lagoa Santa encontra-se a 800 metros de altitude, possui 231,9 km² de área e uma população de 75 145 habitantes em 2022. Está localizado a 35 km de Belo Horizonte.
Lagoa Santa se situa em região de relevo cárstico, apresentando notório patrimônio natural, espeleológico, paleontológico, arqueológico, histórico e cultural. A cidade conta com diversas descobertas e pesquisas científicas empreendidas na região desde o século XIX, tendo o dinamarquês Dr. Lund como pioneiro nesses estudos. Em Lagoa Santa Lund encontrou restos esqueletais de humanos e da antiga fauna pleistocênica. Na década de 1970 pesquisas arqueológicas na região foram responsáveis pela descoberta de “Luzia”, o crânio humano mais antigo encontrado na América, datado em aproximadamente em 11.500 anos. Em junho de 2018 foram encontrados 39 esqueletos humanos com idades entre 8 mil e 11 mil anos na Lapa do Santo.
Os trabalhos realizados em Lagoa Santa contribuem para diversos ramos do conhecimento, com estudos de relevância nas áreas de espeleologia, arqueologia, botânica, ecologia, geografia, geologia, antropologia e etc.
História
A colonização recente da região de Lagoa Santa se dá ao final do século XVII, associada a chegada da bandeira de Fernão Dias Paes Leme que subiu o Rio das Velhas em busca de metais e pedras preciosas. A Bandeira de Fernão Dias Paes Leme, partiu em julho de 1674 de São Paulo se instalando na região hoje conhecida por Sumidouro, onde chegaram por volta de 1675, desbravando durante 7 anos a região da cabeceira do Rio das Velhas, com rumo ao norte. Essa bandeira protagonizou eventos dramáticos como a execução de José Dias, levado à forca por ordem do pai, Fernão Dias, pela acusação de conspiração, e o assassinato do fidalgo Dom Rodrigo Castel Blanco, elevado pelo “administrador geral das minas que se encontrassem descobertas e por se descobrir”. Castel Blanco entrou em confronto com Manuel da Borba Gato que com a morte de Fernão Dias seu sogro, se viu detentor de seus poderes e não estava disposto a se subjugar ao mesmo, visto por ele como um usurpador das conquistas obtidas pela bandeira de Fernão Dias.
Origem da Cidade de Lagoa Santa
A ocupação da região de Lagoa Santa próxima à lagoa natural chamada “Lagoa Santa” se dá por volta de 1733, quando Felipe Rodrigues se estabelece em seu entorno, erguendo ali um pequeno engenho para produção de aguardente. Foi Felipe Rodrigues o primeiro a citar os poderes curativos da água da Lagoa, relatando ao Frei Antonio de Miranda, de Sabará, que ao lavar os eczemas de sua perna, sentiu-se aliviado de suas dores e obteve a cicatrização de suas feridas. Até 1749 não se tem notícias de povoamento ostensivo, o que se altera a partir dessa data com relatos das mais diversas curas operadas pelas águas da Lagoa, registrados por João Cardoso de Miranda, em seu opúsculo “Prodigiosa Lagoa Descuberta nas Congonhas das Minas do Sabará, que tem curado várias pessoas dos achaques que nessa relação se expõe”, de 1749.
A fama das curas operadas pelas águas da Lagoa Santa, cruzou o oceano atlântico chegando a capital portuguesa, Lisboa, onde sua comercialização em barris chegou a ocorrer, sendo posteriormente contestada pelo rei, em vista dos prejuízos decorrentes da disputa comercial com as águas de Caldas.
A partir de 1749 com a chegada à Lagoa Santa de novos habitantes atraídos pela esperança da cura, surgiu à necessidade de se erguer uma capela dedicada a Nossa Senhora da Saúde, cuja provisão foi obtida em 2 de maio de 1749. Em torno de 1750 é chamado para vir à região o ouvidor de Sabará, Manuel Nunes Velho, responsável por demarcar o local para erguimento da capela, e a disposição do arruamento e dos locais para banho, designando para tal Faustino Pereira da Silva como executor de suas decisões. Desde então a cidade de Lagoa Santa se desenvolve em torno da Lagoa Santa e de seus mitos. A perenidade da lagoa é atestada pelos relatos dos naturalistas viajantes, desde o século XVII. Sua profundidade não ultrapassa três metros, sendo que, a aproximadamente 40 metros de sua base, encontra-se um aquífero que contribui para a sua existência. E também, em grande parte, alimentada por águas pluviais e de vários córregos (ribeirões). Seu formato é triangular e, no período das cheias, seu vertedouro lança suas águas no Rio das Velhas através do Córrego do Bebedouro.
Revolução de 1842
Em meados de região de Lagoa Santa foi palco de combates da Revolução Liberal de 1842. Nos dias de 4 e 5 de Agosto de 1842, no arraial de Lagoa Santa, a força insurgente liberal, resistiu tenazmente ao ataque dos legalistas que, apesar da vantagem numérica e de equipamentos, viram seu comandante Coronel Pacheco ser ferido ao início da batalha. Registros ainda revelam o movimento na cidade de Lagoa Santa “(…) a população apoiava abertamente os rebeldes, ajudando a distribuição de munição, durante as pelejas (…)”. Após o ocorrido, em 6 de Agosto, o destacamento que tinha resistido tão bravamente no Arraial de Lagoa Santa se viu obrigado a se dispersar, em função da falta de provisões e reforços. Posteriormente, em 20 de agosto, após a derrota dos liberais na batalha de Santa Luzia, parte das tropas insurgentes se retiram tomando o caminho de Lagoa Santa, o que mostra o engajamento da população na causa liberal. As batalhas na região do município ocorreram nas proximidades da Lagoa Santa, na então Mata da Jangada (atual Horto).
Peter Wilhelm Lund
Nascido em Copenhague, Lund chegou ao Brasil pela primeira vez em 1825, em busca de ares mais puros para sua saúde debilitada. Durante sua primeira estadia, que durou até 1829, ele se dedicou ao ofício de naturalista nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, coletando e estudando espécimes de formiga, moluscos e urubus (Piló e Neves, 2002). Após passar quatro anos na Europa, mostrando aos seus pares o resultado de suas pesquisas nos trópicos, Lund retornou ao Brasil. Entretanto, na segunda visita, ele não se alojou no litoral, mas sim no interior do Estado de Minas Gerais, na região de Lagoa Santa. As riquezas geológicas, paleontológicas e arqueológicas fascinaram-no de tal forma que se estabeleceu definitivamente na região, onde viria a morrer em 1880 (Hurt e Blasi, 1969; Piló e Auler, 2002; Luna, 2007).
Residência de Lund em Lagoa Santa, c. 1868-1869
Entre 1835 e 1843, o naturalista dinamarquês e seu assistente e ilustrador, P. Andreas Brandt, visitaram mais de 800 cavernas, identificando material paleontológico em pelo menos 70 delas, em seis das quais também encontraram remanescentes esqueletais humanos. A partir desses achados foram identificados mais de 100 gêneros e 149 espécies de animais, sendo 19 gêneros e 32 espécies extintas (Cartelle, 1994). Entretanto, entre as inúmeras lapas, grutas e cavernas por eles exploradas, nenhuma foi tão importante como a gruta localizada na base do maciço da Lagoa do Sumidouro. Na maior parte do tempo, essa gruta fica alagada, tornando impossível qualquer tipo de exploração do seu interior. Ainda assim, durante eventos de seca intensa que ocorrem a cada 30 anos, o nível freático fica tão baixo que é possível entrar nela. Em 1842 e 1843, durante um desses grandes períodos de seca, Lund e Brandt escavaram os depósitos subterrâneos da gruta do Sumidouro, que já desconfiavam serem muito antigos (Neves et al., 2007a). Neles, Lund e Brandt encontraram ossos humanos de muitos indivíduos, associados a ossos de animais extintos, convencendo-os da antiguidade temporal do homem americano.
Foi nessa mistura de espécies extintas e ainda vivas que apareceram os restos enigmáticos do cavalo e do homem, todos no mesmo estado de decomposição, de modo a não deixar nenhuma dúvida sobre a coexistência desses seres cujos restos foram enterrados juntos.[21] Portanto, mais de três décadas antes que a comunidade norte-americana sequer começasse a cogitar a existência do Homem Glacial americano, e mais de meio século antes que as primeiras evidências nesse sentido fossem geradas, Peter Wilhelm Lund já estava convencido de que os primeiros americanos eram tão antigos que haviam convivido com os grandes animais extintos (Neves et al., 2007b).
Peter Wilhelm Lund tinha como ilustrador oficial o norueguês Peter Andreas Brandt. Brandt nasceu em Trondheim. Chegou ao Brasil em 1835 onde assumiu o posto de ilustrador e assistente para o trabalho de Lund. Foi o primeiro a retratar a cidade de Lagoa Santa. Suas pinturas, desenhos e gravuras revelam um talento extraordinário e o colocam entre os melhores ilustradores de seu tempo. Ele ilustrou, redigiu e encadernou as teses de Peter W. Lund, além de organizar e catalogar o material encontrado por eles nos sítios arqueológicos no entorno da cidade. Peter Andreas Brandt fundou a primeira revista ilustrada na Noruega. Era professor de desenho e tem obras inéditas pintadas na região de Ringerike, obras estas que se encontram no Riksarkviet em Oslo. Ele nunca voltou a Noruega. Morreu em Lagoa Santa em 1864, deixando obra pequena mas de grande importância artística e científica para a cidade, bem como para a Dinarmarca e a Noruega.
Patrimônio Arqueológico – Primeiras Ocupações Humanas
A região de Lagoa Santa se destaca em função do seu rico patrimônio arqueológico e paleontológico, contando com mais de 180 anos de pesquisas, e registros de ocupações humanas que remontam a 11.500 anos atrás. São diversos os vestígios e achados arqueológicos na região, que teve seus primeiros estudos realizados pelo dinamarquês Peter Wilhelm Lund no século XIX. Dr Lund também conhecido como pai da paleontologia brasileira residiu em Lagoa Santa por 44 anos, onde desenvolveu série de estudos, tendo visitado diversas grutas e reunido um expressivo acervo de achados paleontológicos e arqueológicos. Suas pesquisas na região deram e ainda dão visibilidade ao município em escala internacional, principalmente pela quantidade e significância desses achados. Dr Lund foi responsável pela descoberta de grande parte da fauna pleistocênica da região, além do famoso Homem de Lagoa Santa, propondo teorias sobre a convivência entre ambos. Lund estava acompanhado do norueguês Peter Andreas Brandt, um exímio artista, que além de registrar as escavações e achados operados pelo dinamarquês, deixou também um belo registro das paisagens da região de Lagoa Santa no séc. XIX. Os estudos de Lund contribuíram de forma significativa para diversas áreas do conhecimento, como a Paleontologia, Espeleologia, Arqueologia e Antropologia. Suas pesquisas e análises também foram de enorme importância para a Teoria de Evolução das Espécies, publicada em 1859 por Charles Darwin.
A abundância de vestígios fósseis, e a importância conotada a esses vestígios pelas pesquisas empreendidas por Dr. Lund, atraíram desde metade do século XIX a atenção de uma série cientistas e naturalistas para Lagoa Santa. Dentre eles Warming que viveu na região durante 3 anos (entre 1863 e 1866) exercendo a função de secretário de Lund, e desenvolvendo aqui estudos pioneiros sobre as espécies do cerrado brasileiro, sendo reconhecido pelo seu livro “Lagoa Santa” como o pai da ecologia vegetal. Além de Warming diversos outros estudiosos e naturalistas passaram pela região no Século XIX, como Burmeister, Richard Burton, Agassiz, Riedel, dentre outros.
No século XX várias pesquisas foram desenvolvidas na região por outros pesquisadores, como Cássio H.Lannari por volta de 1909 e Padberg Drenkpol. Drenkpol dirigiu expedições do Museu Nacional do Rio de Janeiro à região de Lagoa Santa em 1926 e 1929, com objetivo de verificar a veracidade das teorias desenvolvidas por Dr. Lund a cerca da contemporaneidade da extinta fauna pleistocênica com o “Homem de Lagoa Santa”. Em 1956 a missão americano-brasileira liderada por Wesley Hurt empreendeu pesquisas no sítio arqueológico da Cerca Grande em Lagoa Santa, concluindo em seus estudos que as ocupações antigas na região de estariam em torno de 10 mil anos (Hurt & Blasi,1969). Outras pesquisas foram realizadas pela Academia de Ciências de Minas Gerais, onde Harold Walter,[29] Arnaldo Cathoud e Anibal Matos[30] escavaram varias grutas e abrigos desde 1933, reunindo significativa coleção e publicando sobre seus achados até 1970.
No início da década de 1970 ocorreram na região pesquisas da missão franco-brasileira, coordenada pela arqueóloga francesa Annette Laming Emperaire, e com a participação de diversos paleontólogos e arqueólogos brasileiros e franceses, como André Prous e Niède Guidon. As pesquisas e escavações feitas por essa missão foram realizadas na Lapa Vermelha IV, e renderam um dos achados de maior destaque na região, um crânio humano que posteriormente seria conhecido na mídia como Luzia.
Reconstituição facial de Luzia
Foram estudos realizados por Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP/SP que revelaram características importantes das populações antigas de Lagoa Santa, demonstrando como sua morfologia craniana se assemelhava ao de grupos africanos e dos aborígenes australianos. Através desses estudos Walter Neves batizou o crânio encontrado pela missão franco-brasileira na década de 1970, com datações de 11.500 anos, de “Luzia”. Segundo os indícios, as populações dessa primeira ocupação se caracterizavam como caçadores e coletores, apresentando um sistema de ocupação sazonal, e dieta que tomava como base a coleta de frutas e outros vegetais do cerrado, sendo complementada pela caça. Posteriormente as primeiras levas humanas foram absorvidas e/ou dizimadas com a chegada de novos grupos à região, esses grupos já apresentavam morfologia craniana semelhante as dos atuais asiáticos. Eles desenvolveram as indústrias líticas e cerâmicas, além da prática da arte rupestre. Diversas são as evidências dessas manifestações culturais na região de Lagoa Santa, presentes nos sítios arqueológicos da Lapa Vermelha, Cerca Grande e Sumidouro.
Os estudos em torno da morfologia craniana das antigas populações de Lagoa Santa, contribuíram de forma definitiva, para a crítica ao tradicional modelo explicativo da povoação do continente americano, baseada nos achados do sítio de Clóvis, New México/USA. A partir dos achados e constatações, surgiu a hipótese dos dois componentes biológicos, desenvolvida por Walter Neves, trazendo novas teorias a cerca do povoamento e ocupação humana nas Américas.
Entre 2001 e 2009, mais pesquisas foram desenvolvidas na região, através do projeto Origens e Microevolução do Homem na América: Uma Abordagem Paleoantropológica, realizadas pelo Laboratório de Estudos Evolutivos da USP, sob coordenação do Prof. Walter Neves. Essas pesquisas ocorreram no sítio arqueológico da Lapa do Santo, na região arqueológica de Lagoa Santa, onde foram encontrados 26 sepultamentos humanos com datações que chegam até 8.800 anos atrás. Nesse mesmo sítio foi encontrado um petróglifo com datação em aproximadamente 10.500 anos, sendo esse o mais antigo grafismo rupestre encontrado até o presente momento no continente americano.
Dando sequência aos estudos, mais pesquisas foram realizadas no projeto Morte e vida na Lapa do Santo: uma biografia arqueológica do povo de Luzia, coordenado pelos pesquisadores André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e Rodrigo de Oliveira, do Instituto de Biociências. Escavações levaram à descoberta de 39 esqueletos humanos com idades entre 8 mil e 11 mil anos na Lapa do Santo em 2018. Os ossos revelam que os povos que viviam no local na altura eram complexos e tinham práticas funerárias elaboradas. De acordo com Strauss, todos os esqueletos tinham sinais de rituais mortuários — “alguns estavam queimados, outros pintados de vermelho e alguns combinavam crânios de crianças com corpos de adultos, ou dentes de uma pessoa com a arcada de outra”. Os sinais mortuários variavam dependendo da idade arqueológica dos ossos, possivelmente indicando que a forma de tratar os corpos dos mortos foi mudando ao longo do tempo. De acordo com Strauss, isto é descoberta inédita na arqueologia brasileira.
Essas pesquisas estão revelando aspectos desconhecidos nas populações antigas da região, com foco em as suas práticas funerárias, que apresentam ao contrário do que se pensava, uma complexidade e variabilidade muito alta. Os estudos já renderam diversos achados de destaque, incluindo o caso mais antigo de decapitação encontrado até hoje nas Américas. Também estão sendo feitas importantes constatações sobre o modo de vida, a dieta e a saúde dessas populações.
As pesquisas na Lapa do Santo estão contribuindo de forma decisiva para se confirmar as antigas hipóteses sobre as populações de Lagoa Santa. Além disso estão abrindo novas possibilidades de interpretação dos achados, demonstrando que a complexidade e variabilidade cultural eram muito maiores do que se imaginavam. Possivelmente a região esteve ocupada por diferentes grupos em um mesmo momento, o que revela, que provavelmente não existia um povo de Luzia, mas sim vários “povos de Luzia”.
(fonte: Wikipedia)

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